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18 de mar de 2013

O dia em que conheci Bernard Charlot


O dia em que conheci Bernard Charlot

Quem é Bernard Charlot?



Bernard Jean Jacques Charlot nasceu em Paris, em 1944. Formou-se em Filosofia em 1967 e, dois anos depois, foi lecionar Ciências da Educação na Universidade de Túnis, na Tunísia. De volta à França, em 1973, trabalhou por 14 anos na Ecole Normale, um instituto de formação de docentes. No período de 1987 a 2003, atuou como professor catedrático da Universidade de Paris 8, onde fundou a equipe de pesquisa Escol (Educação, Socialização e Comunidades Locais), voltada para a elaboração dos elementos básicos da teoria da relação com o saber. Após se aposentar, veio para o Brasil. Como professor-visitante da Universidade Federal de Mato Grosso, seguiu fazendo pesquisas até ser convidado para ser visitante na Universidade Federal de Sergipe, em Aracaju. Desde 2006, é lá que coordena o grupo de pesquisas Educação e Contemporaneidade, engajado em delinear as relações com os saberes e explicitar de que forma os alunos se apropriam deles (http://filosofarpreciso.blogspot.com.br/2009/06/bernard-charlot-ensinar-com-significado.html), acesso em 10/09/2012.


No dia 01 de setembro (sábado) tive o prazer de conhecer pessoalmente Bernard Charlot. Fui a uma palestra dele no Instituto Singularidades, em São Paulo. Dentre tantas coisas que Charlot disse, compartilho aqui algumas das ideias que ele trouxe para discussão. Uma das coisas foi em relação ao sucesso das crianças das classes populares. Ele disse que essas crianças não necessariamente terão uma vida como a de seus pais. Disse que há uma posição social objetiva, mas há também o que as pessoas fazem em suas cabeças com essa posição social objetiva, porque existe também uma posição social subjetiva, e aí entra o papel da escola em mostrar possibilidades, caminhos, dar acesso à um outro mundo possível. Deu o exemplo de Luiz Inácio Lula da Silva (ex-presidente Lula), como uma pessoa que foi muito além de suas origens. Charlot deixou claro que sua abordagem é antropológica. Defende que o ser humano nasce incompleto, inacabado e que pela sua condição humana tem capacidade para criar o que precisa. O ser humano é humano, social e singular ao mesmo tempo. “Quanto mais social, mais sou eu mesmo, mais eu me desenvolvo enquanto singularidade”.

Diz ainda que só aprende quem se mobiliza intelectualmente. A mobilização é um movimento “de dentro”, ela supõe desejo (psicanaliticamente falando). Por isso Charlot justifica que não gosta da palavra “motivação”, pois é algo de fora pra dentro e, dentro da visão que ele acredita, motivação não funciona. O desejo pode investir em objetos de saber.

Na escola se aprende a não gostar do que se ensina na escola”. A professora tem que transformar crianças em alunos. Antigamente, a escola recebia alunos (pois toda a formação anterior era feita na família). Agora a escola recebe crianças, todo o trabalho que antigamente era feito no âmbito familiar, agora a escola precisa fazer. E completa que a escola democrática é aquela que faz o que a família não consegue fazer.

Na caracterização de alunos, relata que há alunos que aprendem com qualquer método (os considerados CDF´s). Há alunos que vão à escola para mudar a vida (em exemplo pode ser um bom aluno de meio popular)- que ele chama de voluntarismo. Há alunos aos quais a escola não oferece aventura intelectual (diz que as vezes até a professora acha chato o que ela ensina...). E há alunos que não vão à escola para aprender, vão à escola para passar de ano e se formar. Fazem as atividades apenas para passar de ano, mais nada. Nesse ponto, eu questionei o que fazemos então com alunos que frequentam escolas organizadas por ciclos, onde não há reprovação (a não ser ao fim do ciclo), o que fazer para que eles se sintam “mobilizados intelectualmente”? Charlot respondeu que esse é um problema, principalmente porque teoricamente as escolas são concebidas em ciclo, mas suas práticas continuam “seriadas”. Enquanto elas não funcionarem na lógica do ciclo e com práticas de ciclo, isso continuará sendo um problema.

Charlot ressalta que os alunos funcionam em uma lógica profundamente diferente da nossa. É preciso conhecê-los, saber o que pensam sobre as coisas, sobre a escola.

Entre outras coisas, Charlot comentou sobre algumas entrevistas que fez com crianças na periferia de Paris e também em periferias de algumas cidades no Brasil. Ele disse que a palavra “refletir” só aparecia relacionada à coisas fora da escola, sobre a vida, por exemplo. Nada na escola relacionava-se com o “refletir”. Isso é um problema. Na escola os alunos aprendem a obedecer. Existe uma “lógica da tarefa”. As crianças acham que estudar é fazer o que a professora disse que elas tem que fazer. Nesse sentido, a lógica do construtivismo nunca foi tão necessária na educação. E indaga: “mas como fazer isso amanhã na sala de aula”? A questão é: “o que é possível fazer”?

Todo mundo quer que os alunos pensem, mas ninguém os ensina a pensar”.

Charlot diz que, em relação as crianças de camadas populares que acabam por ser bem sucedidas inclusive na idade adulta, devem lidar ao mesmo tempo com o sucesso e com o sofrimento de se diferenciar dos seus familiares. É um sofrimento tanto da pessoa, quanto da família. Há uma tripla autorização: a de que o filho será diferentes dos pais, a de que você é diferente dos pais e aceitar que seus pais são diferentes (aceitá-los como eles são). É mais ou menos assim “ganha o mundo e perde a família” como referencial.

Pra finalizar, Charlot coloca a questão da sociedade contemporânea, suas contradições e desafios e que a escola precisa trabalhar com atividades que façam sentido e que sejam fontes de saber. Diz ainda que o conhecimento é sempre resposta à um questionamento. Tem que dar espaço para a criança falar. Temos que saber o que elas pensam sobre o que ensinamos.

Acredito eu que todos esses pontos “pincelados” por Charlot em sua fala nos levam a refletir sobre vários e diferentes aspectos da educação. O que ficou mais forte pra mim foi a questão da construção do sentido no saber e que esse sentido vem “de dentro” e não o contrário. Dessa forma, faz-se necessário repensar as práticas pedagógicas e tentar trazer os alunos para o centro da situação educacional, procurando ouvi-los, saber o que pensam e colocá-los em situações onde eles possam construir questionamentos e buscar respostas. Buscar algo que faça sentido.

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